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A nomeação psiquiátrica não basta para o sofrimento humano

A nomeação psiquiátrica não basta para o sofrimento humano

O sofrimento, enquanto condição de sentimento do ser humano, é documentado como existente desde a mais remota carta de amor não correspondido e visível desde o primeiro choro de um bebê recém nascido. Em nossa sociedade contemporânea, porém, não é incomum encontrarmos pessoas que, em suas falas, estão se utilizando de classificações psiquiátricas para poder explicar e falar sobre o seu sofrer. Às vezes, o diagnóstico veio de um profissional capacitado para isto. Mas nem sempre é assim.

A lista de síndromes e transtornos, dada pelos tratados psiquiátricos, é vasta e você já deve estar familiarizado com alguns termos: Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), Bipolaridade, Síndrome do Pânico, Hiperatividade e Déficit de Atenção, Depressão… Como podemos explicar esse tipo de tendência, na fala cotidiana, de um empréstimo desta linguagem para dizer a respeito de um sofrimento individual?

“Meus amigos dizem que sou bipolar, pois meu humor é muito instável e eu mesmo não consigo estar feliz por muito tempo, mesmo sem motivos.”

“Com certeza minha mãe tem TOC, não pode ver nada fora do lugar em casa que já briga comigo”.

“Preciso estudar para esta prova, já é amanhã mas simplesmente não consigo me focar, acho que meu problema é um déficit de atenção.”

Para entender melhor o fenômeno, vamos retomar a como surgiu este tipo de classificação:

A origem dos termos psiquiátricos que temos hoje teve início em 1840, nos Estados Unidos. O interesse médico da época era principalmente estatístico,  mas havia também interesse em uma alternativa médica aos  modelos psicodinâmicos de intervenção psiquiátrica da época, que careciam de categorização, ou seja, “agrupamentos de sintomas e características que ajudassem a definir determinadas doenças e pudessem auxiliar no diagnóstico dos pacientes.” (Viana, M.B.).  O início desta forma de manejo do adoecimento psíquico, tinha então um claro intuito de identificar qual a maneira mais eficiente de se intervir sobre determinados tipos de adoecimento psíquico, que possuíam certa similaridade de sintomas, possibilitando assim suas classificações.

Há um risco perceptível, porém, quando falamos do diagnóstico psiquiátrico. Ao se receber um “rótulo” diagnóstico - seja ele um déficit de atenção ou de depressão - a pessoa pode ser levada a se afastar da elaboração do seu sentir individual para se enquadrar dentro dos limites gerais definidos pela classificação, e assim, acidentalmente, afastar-se do trabalho terapêutico que o sofrimento nos convida a realizar. Em outras palavras, ser induzido a se limitar dentro do que é padronizado, afastando-se assim daquilo que lhe é único, íntimo.

Rollo May, renomado psiquiatra e psicoterapeuta, apontava sobre o risco que esta tendência nos levaria em seu livro "A Descoberta do Ser":

“Contrariamente às psicologias que determinam teorias sobre o condicionamento, mecanismos de comportamento e impulsos instintivos, eu afirmo que devemos ir além dessas teorias e descobrir a pessoa, o ser com quem essas coisas acontecem. (...) Será revelador demais, profundo demais? Ao esconder o ser, perdemos exatamente aquelas coisas que mais apreciamos na vida - questões de amor, morte, ansiedade, afeição.”

Vamos agora então, pensar sobre a importância da nomeação do sentir.

 

"Afinal de contas, doutor, o que é que eu tenho?”

 

É possível notar a crescente tendência de uma procura, por parte dos pacientes em tratamento ou pessoas procurando por ajuda nas redes sociais, do momento em que possam receber o “nome de sua doença” -  como sendo este o momento em que os seus problemas estariam resolvidos, ou ao menos encaminhados.

Porém, um diagnóstico psiquiátrico não define como será, para este indivíduo em específico, a sua maneira de lidar com o sofrimento. Poderia até ser mais fácil assim, mas, (felizmente) temos tantas variadas possibilidades de sofrer e sentir quanto for o número de indivíduos existentes.

Há um exemplo corriqueiro, fora dos consultórios, para nos servir de pano de base para este fenômeno:

“Quando um garoto, ao ver sua mãe dando atenção e cuidados para seu irmão mais novo, sente-se completamente angustiado e começa a chorar. Sua sensação é de que seu mundo desabou e não há mais abrigo para ele. A mãe, ao presenciar tal sofrimento, tenta acalentá-lo, dizendo: - Calma, filho, você apenas está sentindo ciúmes…”

Este menino, que agora tem um nome para o que sentiu, voltará a ter esta sensação por mais inúmeras vezes ao longo de sua vida. Mas agora, melhor norteado pelo nome “ciúmes”, será possível para ele  dar formas de preenchimento para este mal-estar sentido - o que resulta em uma atividade terapêutica em essência.

Neste caso, a nomeação do sofrimento serve como uma bússola para que ele entenda melhor o que faz parte do seu mundo, podendo buscar apropriar-se daquele sentir, e a consecutiva aprendizagem de como manejá-lo em sua vida.

Van Den Berg faz uma interessante descrição, por exemplo, de como, no chamado “paciente psiquiátrico”, a sua relação com os objetos ao seu redor diz respeito a sua condição psicológica.

“Para o paciente que sofre de melancolia, a vida move-se muito vagarosamente. Ele vê todas as coisas arrastando-se laboriosamente. Consequentemente, o seu corpo também se move devagar e penosamente. O mundo parece murcho e sem vida e por isso, o paciente sente-se cansado, aborrecido e inativo.(...) Quando o paciente psiquiátrico conta como seu mundo lhe parece, está a descrever , sem rodeios, o que ele mesmo é.”

Portanto, há de se cuidar quando receber - ou até mesmo se auto diagnosticar com - alguma síndrome ou transtorno psiquiátrico, para que esta não seja uma forma de sentença condenatória - ou até mesmo uma oportunidade de manter-se em posição enfraquecida, agora justificada por um atestado médico.

É muito mais interessante que o paciente transcenda, ultrapasse esta classificação geral, para que chegue a uma nomeação mais individual - apropriando-se do seu sentir. Esta nomeação pode vir em diversas formas - não apenas um nome propriamente dito. O realizar de uma obra artística, por exemplo, tem servido a humanidade como um caminho de se apropriar e nomear o sofrimento, desde os seus primórdios.

 

Referências Bibliográficas

M. B. Viana, Mudanças nos conceitos de ansiedade nos séculos XIX e XX: Da neurose de angústia ao DSM-IV”. Tese de doutorado, UFSCar.

Van Den Berg, O Paciente Psiquiátrico. Editora Mestre Jou, 1973.

Rollo May, A Descoberta do Ser. Editora Rocco, 1993.

Aprimore Psicologia
Lucas Baviera
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Psicólogo Clínico, formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e realiza atendimento psicológico particular de público adulto e adolescente. Abordagem Psicanalítica.

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