[ editar artigo]

A angústia de fim de ano

A angústia de fim de ano

Aquilo que parece uma restrição da existência é, ao mesmo tempo,
uma porta se abrindo para a verdade e para a nossa realização. 

 

"Onde você vai passar o Natal? E no Ano Novo, vai fazer o que?"
"Ah... Sei lá... Não ligo muito pra isso... Não gosto muito dessa época... "

Não são poucas as pessoas que se angustiam com a aproximação do final do ano. Inicialmente, é comum isso chegar na forma de um encolhimento, um retraimento, assim como acontece na tristeza ou na depressão. Outras queixas frequentes são desânimo, medo, ansiedade, vazio, perda de sentido, solidão, falta de lugar e de pertencimento. Ou ainda simplesmente um incômodo estranhamento. O que este sofrimento pode estar nos dizendo e como fazer um bom uso dele?

Vou mencionar dois aspectos que, acredito, podem ajudar a compreender boa parte destes casos. O primeiro é de ordem familiar. Em muitas culturas, incluindo a brasileira, o Natal remete a uma celebração mais íntima, em geral mais restrita à família, podendo ou não contar com a presença de alguns poucos amigos mais próximos. Tanta comoção nas ruas, na midia, no comércio, no trabalho com a aproximação do período de recesso; tanta falação a esse respeito... Mas pode ser que na sua família, na sua biografia as coisas sejam diferentes. Talvez as pessoas estejam distantes umas das outras, não necessariamente no sentido físico, mas do coração. Ou talvez não haja essa tradição na sua história pessoal, deixando um sentimento de estrangeiro no lugar, de não pertencimento diante da agitação da sociedade. Em resumo, a história familiar da pessoa, passada e presente, com seus hábitos de celebração e grau de proximidade e afetividade pode ser um fator relacionado a esse mal estar de fim de ano.

Outro fator, não menos comum, diz respeito ao próprio momento de virada de ciclo, ou seja, fechamento de um ano e início de outro. Algumas reflexões parecem inevitáveis num final de ano; uma espécie de avaliação, mesmo que de modo não muito consciente: Mais um ano acabando... Afinal, o que eu fiz? Qual foi o saldo deste ano? Alguma coisa mudou para melhor de verdade? Consegui realizar o que me propus no ínicio do ano? Dessa forma, abre-se para mim a percepção do meu modo de ser, de como me conduzi durante o ano. A culpa, nesse caso, é o sentimento de não estarmos conseguindo dar respostas próprias à existência. Desnecessário dizer que a avaliação negativa tende a aumentar em número e grau em períodos de crise como o atual.

Ao mesmo tempo – e aqui temos uma chave – outro ano se inicia, trazendo a perspectiva do futuro, das novas possibilidades em aberto. Um poder-ser. Isto talvez seja ainda mais angustiante que a dor do passado relacionada aos sentimentos familiares ou ao desgosto do ano vivido insuficientemente, mas é desta angústia que algo pode surgir. Refiro-me à angústia no seu sentido existencial, ou seja, quando os significados habituais das coisas ficam momentaneamente suspensos e nós, arrancados das também habituais ocupações cotidianas e distração de si, nos vemos diante de nós mesmos como os únicos responsáveis por como nossa vida está – e por como ela pode ficar. A angústia é a indagação dentro de nós mesmos, é uma porta que se abre em nós para a verdade. Portanto, é para ser atravessada, vivida, e não evitada.

Num primeiro momento da angústia, de alguma forma um mundo está ruindo. Às vezes reagimos com pânico, como prenúncio de uma transformação, de uma nova possibilidade de ser; às vezes, deprimindo, como saudade dos velhos tempos. Já num segundo momento, conseguimos olhar para a frente e seguir caminhando, apesar de ainda não vermos muita coisa neste movimento inicial de transformação em meio às brumas. Finalmente, num terceiro momento temos a percepção de que somos autores da nossa existência, de que tudo é escolha, de que somos aquele que pode ser isto ou aquilo.

Temos aqui um chamado da consciência e possibilidade de uma resolução de ano novo. Uma manifestação mais amadurecida da angústia, que pode se traduzir tanto em estímulo e motivação quanto em sereno encontro. A partir daí, não importa tanto se mais à frente as condições permitirão o pleno cumprimento das nossas resoluções iniciais. O que importa e muito é nosso foco e determiniação, porque frequentemente caimos na armadilha de não honrar as promessas feitas para nós mesmos, o que é um veneno para a autoestima e a autoconfiança. E assim o ciclo tende a se repetir com mais uma avaliação negativa ao final do ano.

Então, se há algo que pode ser feito nesta época do ano, no meu entendimento, é justamente olhar para estas questões – ou aquelas que se aplicam em cada caso – em vez de esquivar-se delas, buscando compreender o que não está bom e o que pode ser feito, e então com-prometer-se com isso. Se algo não está bom, seja o que for, é porque alguma coisa precisa ser aprendida e somente isso possibilitará a transformação.

Resumo da palestra apresentada no Núcleo de Estudo Psicológicos Aprimore em 7/12/2009. Photo by Cunny, Alone in the crowd, 1988 (editada).

 

Aprimore Psicologia
Luiz Pezzini
Luiz Pezzini Seguir

Luiz Claudio Di Pino Pezzini (CRP 6/36072). Clínica e Ensino de Psicologia. São Paulo/ Online. luiz@aprimore.com.br. +55 11 98187-9987.

Ler matéria completa
Indicados para você