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A polêmica sobre a literatura de autoajuda

A polêmica sobre a literatura de autoajuda

 

Algumas pessoas acreditam no valor da autoajuda. Outras não. Algumas seguem cegamente livros e manuais. Outras os atacam ferozmente. Será que tem alguém “mais certo” nesta estória? Afinal, pode haver efetividade na autoajuda ou é tudo enganação?

Antes, um esclarecimento: estamos chamando de autoajuda a vastíssima literatura (incluindo os formatos digitais atuais) voltada para o desenvolvimento e transformação das pessoas, seja pela via do autoconhecimento, seja pela aquisição de técnicas e habilidades, suporte emocional, espiritualidade ou ainda outras.

Obviamente, o “auto” de autoajuda vem do fato de que o leitor percorre o caminho proposto sem a mediação direta de outra pessoa. Mas, é bom lembrar que, como em todos os casos o material foi feito por alguém, ele jamais deixa de ser uma “ajuda” vindo de outra pessoa. Inversamente, tampouco podemos supor que, ao procurarmos um profissional para nos ajudar, não estaremos também iniciando um processo de “ajudar a si mesmo”, caso contrário seria apenas uma dependência. Aliás, essa é a base de qualquer transformação real – o  engajamento da pessoa em seu próprio processo.

Quando que a autoajuda pode ser um problema? A meu ver, quando ela afasta a pessoa de si mesma, da verdade de si. Quando ela estimula a tendência tão em voga na contemporaneidade a buscar soluções mágicas imediatas, “quick fix” para tudo, distorção esta amplamente estimulada pela sociedade de consumo e que laboratórios farmacêuticos, empresas de tecnologia e a indústria do marketing sabem explorar muito bem, para citar uns poucos. Em todas as áreas, há gente fazendo todo tipo de promessa para vender mais. Este tipo de “autoajuda” distancia a pessoa dos seus verdadeiros recursos, estimula a adoção de máscaras, cria robôs. Os mais iludidos pela promessa de solução fácil podem ter sua autoestima e autoconfiança rebaixadas diante da sua aparente inaptidão em alcançar o prometido. As transformações mais profundas e verdadeiras ocorrem de dentro para fora e com a pessoa inteiramente envolvida, implicada. Não são uma nova roupagem que basta a gente vestir ao final do livro.

Mas há também a autoajuda que não implica num empobrecimento da pessoa, num decaimento do potencial humano. São obras que nos abrem, que nos remetem a nós mesmos, nos ajudam a nos ver melhor. Claro, ainda assim a caminhada é solitária e em algum momento talvez essa pessoa queira fazer uma terapia para explorar melhor as possibilidades, pois há regiões do ser que só conseguimos visitar com ajuda de alguém. Não é à toa que desde as mais antigas tradições de cuidado e transformação de si há sempre a presença de um outro. No caso da “boa” autoajuda, o que importa é que esta consciência que busca a si mesma está sendo verdadeiramente convocada a se ver, a se implicar na verdade de si, seja para transformar sua negatividade, seja para manifestar seu potencial. Algumas destas obras são verdadeiras pérolas para a evolução pessoal. Aliás, este é certamente o caso de inúmeras obras de inestimável valor artístico, filosófico ou espiritual não consideradas de autoajuda, mas que acabam tendo este efeito no leitor. Não é de hoje que a grande literatura universal vem servindo de mestre para muitas pessoas, inclusive para nós profissionais cuja especialidade é a existência humana.

Autoajuda é uma categoria muito ampla. Não cabe julgá-la como um todo, como algo único. Pode conter do lixo marketeiro à preciosidade. Fica para o leitor a tarefa do discernimento, lembrando que seu desafio não está apenas em avaliar a obra, mas principalmente o quanto ele pode estar enganando a si mesmo. Ou não. E também o desafio de encontrar o ponto de equilíbrio entre caminhar sozinho e saber pedir ajuda quando precisar. Porque as duas coisas são necessárias nessa vida.

 

Abril 2016

Aprimore Psicologia
Luiz Pezzini
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Luiz Claudio Di Pino Pezzini (CRP 6/36072). Clínica e Ensino de Psicologia. São Paulo/ Online. luiz@aprimore.com.br. +55 11 98187-9987.

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