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Bom senso: um conceito, muitos mundos

Bom senso: um conceito, muitos mundos

Se mesmo o que consideramos senso comum muitas vezes precisa ser esclarecido, com o bom senso a garantia de que estamos falando da mesma coisa é menor ainda – se é que há alguma

 

Recentemente sugeri que diminuissem o volume do som da academia. O coordenador esclareceu que o controle do volume do som era “baseado no bom senso” e gentilmente acrescentou que reforçaria a atenção a este aspecto. Imediatamente percebi que estava numa zona de incerteza, apesar da sua aparente boa vontade. Mas por que, se agora eu sabia que poderia contar com o bom senso das pessoas encarregadas do som? Em primeiro lugar, porque essa já era a regra e, do meu ponto de vista, não estava funcionando. Segundo, porque, a princípio, nunca sabemos se aquilo que é bom senso para mim, é também para o outro.

É comum atribuirmos ao bom senso a função de balizar o que ou como algo deve ser feito: a atitude esperada, o critério de decisão, a melhor resposta. “Use o bom senso”, recomendamos. Mas às vezes o resultado não é o esperado, como se faltasse bom senso no outro, e, surpresos, denunciamos o “absurdo”: “Como assim?! Isso é uma questão de bom senso!”

O que chamamos de bom senso estaria mais para uma “convenção” do que supostamente seria melhor ou mais adequado numa certa situação. Uma espécie de “senso comum”, de “acordo” implícito entre “todos”. Esse suposto “acordo” jamais feito é nada mais nada menos do que o compartilhamento “automático” de um sistema de referências. Chamamos também de “mundo” essa rede de referências e conexões que dá significação às coisas e faz com que a gente se entenda.

O problema é que os mundos são tantos que a pretendida convenção implícita muitas vezes não acontece. A rede de significações que compõe o mundo de cada um pode diferir radicalmente de pessoa para pessoa. Quando isto acontece, o que é bom senso para mim pode não ser para o outro – algo nada raro. Mas nos apressamos em dizer que o outro “não tem” bom senso, quando o mais provável é que ele o tenha sim, só que a partir de outro conjunto de referências. Precisamos então refazer o tal acordo para alinhar as referências, só que agora de modo consciente e explícito. Muitas vezes isto acontece com um funcionário ou membro de equipe e, em geral, é algo fácil de se resolver desde que haja um pouco de boa vontade e atenção à comunicação.

Comunicação é a chave para a maior parte das dificuldades entre as pessoas, seja no contexto organizacional, seja em outras situações da vida. É claro que uma boa comunicação exige algo de mim também; não se trata de manipulação, de falar com jeitinho para se conseguir o que se quer, mas de, antes de tudo, procurar compreender o sistema de referências do outro, para, com base nisso, sensibilizá-lo para as minhas referências, mostrar o que é bom senso para mim, ensiná-lo se necessário. Enquanto isso, na academia as coisas continuam as mesmas. Não sei se porque o reforço de atenção prometido pelo coordenador não foi suficiente para os encarregados do som compreenderem o referencial de bom senso dele, ou se (e esse é meu palpite) porque a referência de bom senso deles coincide e sou eu que destoo.

 

Abril/2016

Aprimore Psicologia
Luiz Pezzini
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Luiz Claudio Di Pino Pezzini (CRP 6/36072). Clínica e Ensino de Psicologia. São Paulo/ Online. luiz@aprimore.com.br. +55 11 98187-9987.

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