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Domingo

Era mais um dia. De novo, ela abre os olhos e sente que tudo está perdido. Nada faz sentido. Ela anda em direção ao abismo, chega mais perto a cada dia. Ficar na cama pode ser um modo de proteção. Ela sabe o quanto é arriscado viver. Ela sabe o risco que ela representa para ela mesma. A dor no peito aumenta, aumenta... Os ombros doem, o pescoço... A garganta dói. Ela quer gritar. Sabe que falar não adianta, ninguém ouve mesmo! Tá bem... Tem gente que ouve, sim. Ou escuta. E quer dar conselho, falar bonito, ser o responsável e ganhar o crédito por tirá-la desse inferno. O que não entendem é que somente ela pode se retirar dali. Foi ela que ali se colocou, entende? Samsara... Mas ela se colocou de um jeito tão bem colocado que não tem conseguido ver saída. Daí tem dias que ela sente o peito apertando... Noutro, a sensação de estar no fundo do mar... Ela tenta falar, a voz não sai. Ela nada pra cima, quer desesperadamente sair dali, mas a superfície nunca chega! É porquê ela nunca foi superficial. Ela não sabe ser mais ou menos. Entende? Foi ela que se colocou ali. Samsara... No meio do oceano de emoções sufocantes, ela grita e se afoga nas próprias palavras.

O namorado dela olha para a cena, atônito, imóvel, impotente. Ele nunca chegou nesse lugar. Ele não conhece as profundezas. Ele não não tem perfil para Hades... Ele queria tanto uma Psiquê! Mas foi se apaixonar logo pela Perséfone, a rainha das trevas... Esses meses de Inverno gelam o coração ele. E congelam as pernas e os braços e ele fica assim, com todos os movimentos duros e o olhar distante. E ela se afunda mais e mais. Ela se culpa, não quer ser a Medusa, não quer transformar este Amor em pedra…

Tadinha... Ela sofre. Às vezes, ela acha que tudo vai acabar com uma explosão da sua cabeça. O grito e a explosão. Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah... Buuuuuuuummmm!

Mas tem algo dentro dela que é forte. Ela acredita numa força, sabe? Acha que não é dela... Porque agora ela só consegue olhar para o que falta... Tudo bem... Ela sai da cama mesmo assim, com uma bola de concreto amarrada aos pés... Toma um banho que chega a doer, as gotas caem pesadas. Ela chora de dor. Essa dor no peito... Ai!

Se veste... Consegue até se maquiar. Lápis, batom, rímel… Pronto! A máscara! Persona! Ri forçado para o espelho. Boca pra cima, olhos pra baixo. Uma dança em seu rosto. E sai... Seu andar é robótico. A roupa é colorida e o peito, cinza, cinza...

Dia ensolarado. Vitamina D. Vai ajudar a ficar melhor. Assim disse o doutor. Quinze minutos de Sol por dia. Ela se cansa no segundo minuto. Ela se irrita no quinto. Ela chora no décimo... Mas continua. Caminha... Já nem sabe para quê. Caminha porque sim. Só pra deixar pra trás aquela dor. Mas esta vai junto. Fiel escudeira…

Ela caminha numa grande e movimentada avenida. O namorado vai junto. Perdido... Ela, sem destino, chora. Num ato desesperado, uma espécie da tábua de salvação, ele vê uma moradora de rua com filhotes de cachorros na calçada. Ele praticamente arrasta a amada e a leva para perto dos filhotinhos. Ele acredita que os bichinhos têm algo a dizer pra ela. Algo que ele, humano, racional, não conseguiu dizer. Mas é assim mesmo. A razão às vezes atrapalha. Ela resiste o quanto pode. Até que o olhar dela cruza com o olhar de um dos cachorrinhos. E ela vê tanta doçura! E tanta pureza... Agora, ela se percebe Pandora. Abriu a caixa e viu todas as desgraças, saíram pelos seus olhos, sua boca, suas mãos... Até que ali está... Nos olhinhos do cachorrinho que foi espancado e, doente, resgatado por aquela moça que mora na rua... No cachorrinho feliz que estava magricelinho e agora tem até uma gordurinha na barriga... Foi ali que ela viu a Esperança! Foi ali que ela reencontrou a esquecida vontade de viver.

No cachorrinho que ganhou o nome de Fênix.

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