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Estar por inteiro no momento presente é uma forma de se iluminar

Estar por inteiro no momento presente é uma forma de se iluminar

Muitos dos nossos problemas simplesmente se dissolvem quando estamos verdadeiramente presentes no aqui e agora. Somente na presença a existência humana pode ser plena.

 

Em outro artigo abordamos a questão do nosso estado mental, de como os pensamentos determinam se estamos “bem” ou “mal”. Apontamos o exercício da auto-observação dos pensamentos como o passo inicial para se libertar da escravidão da mente. Além de ser uma boa forma de começar a aquietar a mente, este exercício permite-nos identificar que tipos de pensamentos estão nos tirando a presença, isto é, a possibilidade de estarmos por inteiro no momento presente. Ele nos fornece as pistas de onde estamos e do que ainda precisamos integrar em nossas vidas.

Dentre essas trilhas de pensamentos repetitivos que acabam gerando padrões de comportamento igualmente repetitivos e impedem a presença, encontram-se os pensamentos relacionados ao passado e ao futuro.

De fato, passado e futuro são aspectos indissociáveis da existência humana. Não exatamente em termos do que já foi ou daquilo que ainda está por vir, mas em termos de que somos, nós mesmos, passado e futuro simultaneamente, a todo momento. É no momento presente que se articulam nossa história e o “lá” que o futuro nos anuncia.

Até aí tudo bem. Acontece que esta característica ontológica do ser humano pode se manifestar de diversas maneiras e, devido ao fato de que ainda temos pouco domínio sobre nossa mente, pensamentos ligados ao passado e ao futuro ocorrem numa frequência altíssima, convertendo-se numa forma de aprisionamento. Estamos sempre a “reviver” cenas do passado, às vezes simplesmente revendo e reforçando os sentimentos ligados a elas, outras vezes tentando entender o que deu errado, modificando falas, perguntando-se “e se tivesse sido assim?” Aprisionados às lágrimas derramadas ou não, acabamos gastando boa parte do nosso tempo também com antecipações do futuro, ensaiando situações por vir, ansiosos para que nossos desejos se realizem ou temerosos do oposto. Em resumo, apegados ao passado e aos frutos da nossa ação. O problema, portanto, não é a temporalidade, mas o apego a isto que alguns chamam de tempo psicológico.

O ponto que nos interessa aqui é que se estamos sintonizados no passado ou no futuro, não estamos inteiramente presentes no aqui e agora. E por que isso seria um problema? Resposta: pelo simples fato de que a vida ocorre aqui e agora. O passado é base, é fundação, apoio a partir da qual podemos dar o passo. O futuro é chamado, é a perna que avança. É para onde a vida naturalmente caminha. Mas a vida em si se dá no presente – a existência é isso, o próprio aqui-agora. Já dizia Lennon, a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos.

Quanto estamos verdadeiramente sintonizados na presença, a maioria dos nossos problemas desaparece. Isto porque a maior parte dos nossos problemas decorrem dos pensamentos, da atitude mental. Observe atentamente. Mesmo quando estamos passando por uma fase difícil, com problemas reais, uma sintonia fina no aqui-agora frequentemente permite a experiência da ausência dos problemas. Note que isto é radicalmente diferente de alienar-se da realidade, pois, ao contrário da alienação, estamos falando de um grau superior de consciência. Também não quer dizer que não devamos pensar no passado ou no futuro, mas apenas aponta para a diferença entre fazer um uso adequado da mente (memória, conhecimento, capacidade de planejamento e previsão, etc.) e “ser usado” por ela.

Ganhar presença pode parecer complicado devido ao nosso vício em pensar e em estar ocupado. Sim, vício. Passamos a maior parte do tempo envolvidos com nossas ocupações. Ficamos tão habituados a estarmos ocupados, que para muitos é difícil imaginar-se sem fazer nada. No plano dos pensamentos, ocorre a mesma coisa: estamos sempre ocupados, pensando em algo. Além disso, muitas vezes o que estamos pensando não coincide com o que estamos fazendo. Isto acontece porque já sempre nos movemos na vida com uma certa compreensão do mundo e de nós mesmos, uma certa familiaridade que nos permite conduzir nossas tarefas sem que estejamos necessariamente pensando sobre o que estamos fazendo. Sem que estejamos inteiros na ação. Funcionamos no automático.

Um exemplo comum é quando vamos a um local que já estamos acostumados a ir. Não ficamos pensando a cada momento no que estamos fazendo para chegar no local desejado, simplesmente vamos. Enquanto seguimos em direção ao destino, a mente vai para outro lugar, levada pelos pensamentos, e assim somos levados por ela também. Absorvidos pelos pensamentos, distraídos de nós mesmos por esta absorção pelas ocupações e pensamentos, já não nos damos conta de que perdemos a presença e estamos sendo conduzidos pelos passeios da mente. A perda da presença nos coloca à mercê da mente: se nos ocorre de termos pensamentos agradáveis durante o trajeto, ficamos de bom humor. Se, por outro lado, nos lembramos de algo incômodo, é possível que cheguemos ao nosso destino de péssimo humor. Um detalhe importante: o humor, neste caso, não tem nada a ver nem com a viagem em si, nem com as condições do local de chegada, mas tão somente com os pensamentos ocorridos durante a viagem. O controle que os pensamentos exercem sobre nós (isto é, o quanto nos identificamos com eles) tende a ser maior quanto menor for nossa presença. Ora, isto também implica que na presença temos uma chave para a libertação dos apegos. Presença é luz.

O resgate da presença começa com uma decisão. Sempre que se perceber perdendo a presença, é só retornar: conectar-se com o agora, consigo mesmo, com o corpo, a respiração, a paisagem, a música, enfim, o que quer que seja que esteja compondo seu aqui-agora. Às vezes nossos sentidos comuns ajudam a resgatar a presença: sentir a brisa tocando a pele, o aroma que nos arrebata, o sabor de algo. Por simples que seja o estímulo sensorial, ele pode ser percebido em sua maravilha e nos deixar em êxtase. Outras vezes, somente nos distanciando dos sentidos é que conseguimos ganhar presença. É quando já estamos excessivamente “para fora” e precisamos do recolhimento para conseguir a conexão. De fato, a tradição nos presenteia com inúmeras técnicas úteis para o desenvolvimento da presença. Aos poucos, cada um vai percebendo o que mais lhe ajuda. Desde as técnicas mais suaves e silenciosas até aquelas mais dinâmicas, o que se busca é o contato consigo mesmo e a experiência da união com o todo, gerando assim maior espaço interior, expansão da consciência e capacidade de estar total na ação. O ganho de presença eleva nosso nível energético e proporciona condições superiores para lidarmos com tudo que se apresenta. Na próxima vez que se perceber agitado, por que não experimentar parar tudo por alguns segundos, respirar fundo e se conectar com o aqui-agora?

 

Junho de 2008

 

Aprimore Psicologia
Luiz Pezzini
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Luiz Claudio Di Pino Pezzini (CRP 6/36072). Clínica e Ensino de Psicologia. São Paulo/ Online. luiz@aprimore.com.br. +55 11 98187-9987.

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