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A fundamental arte de tornar-se si mesmo

A fundamental arte de tornar-se si mesmo

A verdadeira realização do ser humano tem mais a ver com a desconstrução do falso eu do que com a construção de uma certa personalidade 

 

Uma boa parte do nosso tempo e energia é gasta na tentativa de nos tornarmos um certo alguém, diferente de quem somos. Em geral, só estamos conscientes de uma pequena parte deste processo. Diferentemente do que se poderia imaginar, isto acaba sendo um problema para a realização humana, gerando grande sofrimento. Vejamos como isso acontece.

A primeira coisa a ser compreendida diz respeito ao conceito de mundo. Comumente, pensa-se o mundo como algo fora e que se contrapõe ao eu, isto é, como tudo aquilo que não é eu mesmo, inclusive o lugar onde tudo se encontra. Mas este é apenas o conceito mais simples de mundo. Ontologicamente, mundo é uma parte fundamental do ser humano, ou seja, faz parte da nossa constituição existencial.

Desde o primeiro momento de vida (ou mesmo antes), vamos recebendo o que nos é passado pelo mundo. No início, o mundo é a mãe; depois ele vai se estendendo para outros até que finalmente passa a abranger toda a cultura a que se tem acesso. Sem esses conteúdos que recebemos do mundo, não haveria como se tornar propriamente humano.

A partir destas informações que vamos recebendo, desenvolvemos a noção de eu, de si mesmo. Assim, dito simplificadamente, se o mundo nos comunica que temos valor, que somos queridos, desenvolvemos um ego mais saudável. Se, por outro lado, o mundo nos passa que somos indesejáveis, que não temos valor, desenvolvemos um ego mais adoecido. É desse modo – a partir do nosso reflexo nas coisas e pessoas – que se forma nossa auto-imagem. Não vemos diretamente a nós mesmos. Ao contrário, é-nos dito quem e como somos – e nós acreditamos no que nos dizem. A criança não tem alternativa senão acreditar. Um detalhe importante: o mundo não nos diz apenas “quem” somos; diz também como devemos ser.

Este é o início do que chamamos de ego ou falso eu em nossa vida. Ao chegarmos, estamos muito próximos da nossa essência, mas, com o passar do tempo, conforme vamos desenvolvendo uma noção de que existimos, de quem somos e de como devemos ser, vamos nos distanciando desta essência. A sociedade não está preocupada com você. Ela não se importa que você seja você mesmo. O que a sociedade quer é não ter problemas, então o melhor para ela é que você se adapte.

Observe que curioso o movimento da consciência de si mesmo: inicialmente, não temos qualquer consciência de nós mesmos; o que há é uma realidade indiferenciada, que nos gera sensações de conforto ou desconforto. Em seguida, começamos a nos tornar conscientes do mundo: a mãe, o brinquedo, etc. Somente então, por último, é que nos tornamos conscientes de nós mesmos. E mais: este eu que somente agora des-cobrimos ainda não é nosso eu verdadeiro! O modo como a existência se dá nos leva a acreditar que somos o falso eu, criado a partir das relações com o mundo. Resta-nos ainda descobrir nossa verdade maior. Essas são as regras do jogo para todos: precisamos conhecer primeiro o falso, para então, a partir dele, encontrarmos o eu verdadeiro.

Com o mundo dizendo como devemos ser e ainda, na esmagadora maioria dos casos, incapaz de nos amar incondicionalmente, vamos desenvolvendo máscaras, acreditando que assim, quem sabe, seremos amados, já que é isso o que o ser humano mais quer. Estas máscaras têm a ver com um eu que idealizamos, uma auto-imagem ideal. Queremos ser de uma certa forma. Chegamos a acreditar que já somos nosso eu idealizado. Este alguém que gostaríamos de ser começa a ser idealizado muito cedo na vida, e, embora possamos ver partes deste processo, no geral ele é quase inteiramente inconsciente.

Esta é uma das principais fontes do sofrimento humano, porque significa querer constantemente ser quem não se é para agradar alguém. Em outras palavras, desviar-se da própria essência o tempo todo a partir de uma crença mais ou menos inconsciente sobre como se deveria ser. Frequentemente a sabedoria popular, identificando esta armadilha, adverte-nos: “seja você mesmo”, “não importa o que os outros pensam”, “o que importa é o que você sente”, e assim por diante. É verdade, mas o problema é que este outro não é apenas o fulano com quem nos relacionamos durante a semana, ele está profundamente internalizado, ele se tornou nosso eu idealizado, e ligado a ele há uma forte crença equivocada de que somente assim seremos bem sucedidos.

Por causa disso, “ser si mesmo” pode tão facilmente ser confundido com o eu idealizado, mantendo-nos presos a uma idéia de como deveríamos ou gostaríamos de ser, e, portanto, ainda presos à construção de uma certa pessoa, uma certa personalidade que, quando conseguirmos manifestar, aí sim (supostamente) alcançaremos o sucesso. Nada mais ilusório. Até porque, sendo falso, o ego é miserável, nunca se realiza plenamente, está sempre faminto e seu eterno alimento é atenção, aprovação, reconhecimento.

O verdadeiro sucesso ocorre quando deixamos de querer ser alguém e passamos a simplesmente ser quem já sempre somos. Com isso abrimos oportunidade para que o verdadeiro crescimento ocorra, que é a identificação e desenvolvimento de nossos reais talentos, aptidões e interesses, através dos quais manifesta-se nossa missão, isto é, o propósito pessoal que dá sentido à vida. Este processo tem início com a identificação do falso eu. O caminho para se chegar à verdade tem portas estreitas, só você passará, todo excesso de bagagem terá que ficar para trás.

Assentar-se no eu verdadeiro significa, por si só, livrar-se de uma boa parte do sofrimento, porque estar desalinhado com a própria verdade implica necessariamente em sofrimento. A psicoterapia e outros caminhos de evolução pessoal nos ensinam que boa parte das dificuldades humanas decorrem simplesmente da falta de autoconhecimento, que age como uma névoa de ilusão que nos impede de ver nosso tesouro, nosso real ser. Esta é a grande ignorância de que uma pessoa pode sofrer; é a única ignorância que há de verdade.

A dica ainda é a mesma: aproveite os momentos de sossego da mente para escutar o coração, que, falando baixinho, nos revela o tempo todo nosso eu verdadeiro. E lembre-se: está tudo bem em ser você mesmo, pode relaxar. Se Deus quisesse algo diferente, teria criado isto em vez de você.

 

Agosto de 2008. Publicado originalmente no Portal Teias, de Consultoria em Desenvolvimento de Pessoas e Negócios, em Setembro de 2009.

Aprimore Psicologia
Luiz Pezzini
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Luiz Claudio Di Pino Pezzini (CRP 6/36072). Clínica e Ensino de Psicologia. São Paulo/ Online. luiz@aprimore.com.br. +55 11 98187-9987.

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