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O bebê invisível: quando um aborto acontece

O bebê invisível: quando um aborto acontece

Muitas frases são prontamente disparadas quando uma mulher conta que teve um aborto. As bem-intencionadas palavras são uma tradução de como a sociedade lida com as perdas perinatais, mas pouco tocam a mulher em sua subjetividade.


“Você é jovem, logo engravida de novo." 

Perder um bebê ainda no útero pode gerar muita preocupação com a própria saúde e a capacidade de levar uma gestação até o fim. Contudo, ainda que esse questionamento esteja presente, reforçar a provável potência reprodutiva dessa mulher não fará necessariamente com que ela se sinta melhor. Mesmo que ela possa e queira ter outros filhos, 'aquele' filho foi perdido e cabe a ela, sempre, nomear suas aflições e colocá-las em ordem de prioridade.

“Talvez tenha sido melhor assim. Deus sabe o que faz.”

A morte é um imperativo existencial tão intenso que, para tentar explicá-la ou mesmo justificá-la, é comum que busquemos apoio na religião ou em nosso sistema de crenças espirituais. A morte de um bebê ainda no útero é traduzida, muitas vezes, como intervenção divina para se evitar um grande sofrimento - como no caso de bebês sindrômicos ou com má-formação. Esse é um exemplo clássico de como a nossa cultura (de forte influência judaíco-cristã) se sobrepõe às crenças individuas daquela mulher que, mesmo sob forte ambivalência de sentimentos (desejar ou não aquele hipotético filho distante do ideal), não se sente “liberada” de um sofrimento posterior pois, mesmo na hipótese de um filho com problemas, já o tomara como seu, seja como for. Outras tantas, porém, podem inclusive viver um alívio, mas ainda nesse caso, costumam sentir culpa devido à expectativa social de “como” se sentir frente às perdas perinatais e, honestamente, a maioria delas não oferece real conforto às mulheres.

“Ainda bem que foi no começo.”

Existe um consenso social de que tempo de convívio (e o próprio convívio em si) é condição para determinar o quanto você vai sofrer. De fato, os estudos sobre luto, por exemplo, os citados por Colin Murray Parkes - reconhecido mundialmente como autoridade no tema, apontam que o tempo de convivência com a pessoa que faleceu afeta o processo e a intensidade do luto. Contudo, não é o único fator determinante. Se, por um lado, o número de experiências vividas influencia o “tamanho da dor”, por outro, Gorer (1965) descreve a perda de um filho, seja qual for sua idade, como: “o luto mais duradouro e que causa mais sofrimento”.

No entanto, nossa sociedade tende a não considerar abortos como perda de um filho. Nos hospitais, ainda que a mulher nomeie o bebê como seu “filho”, alguns profissionais de saúde o chamam de feto. Os próprios trâmites legais dificultam o processo do luto uma vez que não permitem rituais que possam dar lugar a subjetividade daquele vínculo. Do ponto de vista psicológico, o que transforma um ‘feto’ em um ‘filho’ não é o tempo de gestação, ou mesmo de convívio, é o investimento afetivo (desejo, projeções, expectativas) feito naquele bebê e que, portanto, é absolutamente singular e variável. Dessa forma, as respostas moduladas coletivamente poucas vezes são capazes de abarcar a necessidade daquela mulher em particular.

Escuta e apoio empáticos

Todavia, partindo da escuta e apoio empáticos, muitas falas podem oferecer um enorme acolhimento para a mulher que teve um aborto.
Primeiramente, reconheça a perda. Frases como: “Eu soube o que aconteceu com você. Posso ajudar de alguma forma?” ou um simples “Como você está? Quer conversar?”. Ao contrário do que se pensa, muitas mulheres desejam falar sobre sua perda e se sentem muito sozinhas em seu luto pela evitação das pessoas em falar do assunto. Se tiver dificuldades em dizer algo, admita isso: “Não sei o que te falar, mas sinto muito pelo que aconteceu!”. Nesse momento, o reconhecimento social da perda (eu percebo sua dor) e a demonstração de afeto (um sincero abraço) são muito mais potentes do que os “consolos” citados acima. Faça companhia, ou pelo menos a ofereça. Avise as pessoas próximas daquela mulher sobre o que aconteceu para evitar constrangimentos. Esteja preparado para reações diferentes - ao abordar sua amiga que teve um aborto, ela pode cair num choro profundo, mudar de assunto ou até mesmo responder com um: "tudo bem, eu estou bem!"

Por fim, ofereça apoio ao logo do tempo. Geralmente evitamos falar do assunto, principalmente se a pessoa parece bem, contudo, durante o processo de luto é salutar falar sobre a perda. Se você tem intimidade ou mesmo se a pessoa mencionou o aborto, aproveite a deixa para reforçar seu apoio: “Como você está agora? Sente que ainda precisa falar sobre o que aconteceu?”.

Há muita coisa para ser dita e aprendida sobre as perdas perinatais, mas penso que o primeiro passo é falarmos sobre o assunto, para que cada vez menos seja um tabu e possa ser visto e acolhido socialmente como parte da natureza e existência humana.
 

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