[ editar artigo]

Palavras são janelas (ou paredes)

Palavras são janelas (ou paredes)

A comunicação não violenta como ferramenta para a construção de um mundo mais empático

Por Roberta Ursaia

 

(...) “Há coisas que preciso dizer,
Coisas que significam muito para mim.
Se minhas palavras não forem claras,
Você me ajudará a me libertar?
Se pareci menosprezar você,
Se você sentiu que não me importei,
Tente escutar por entre as minhas palavras
Os sentimentos que compartilhamos.”

Ruth Bebermeyer

 

O poema citado acima foi retirado de um livro precioso que será abordado no presente texto mais adiante. Ele traz a inspiração desejada para tratarmos de um assunto fundamental para nós humanos, a comunicação.

Sabemos quão vasto e importante é o tema, mas parte sua dimensão ampla, esta reflexão pretende apresentar uma perspectiva: sua forma de se comunicar, na maioria das vezes, parece proporcionar “janelas ou paredes” entre você e seu interlocutor?

Metáforas comunicam através de imagens poéticas e podem dar margem para confusão. Então, em outras palavras: a sua comunicação traz conexão entre você e o outro? Ou conduz a uma experiência de separação?

Outro aspecto desta reflexão, você se considera capaz de ouvir o outro plenamente? Sem interromper ou tentar “salvá-lo” em suas aventuras, ou talvez “melhorar” as mesmas, acrescentar versões personalizadas para aquilo que está sendo dito? Então, como podemos fazer algo junto com alguém, dialogar, se andamos tão empenhados em desaprender a ouvir as pessoas?

Você já deve ter pensado sobre isso, como o modo que você se comunica pode afetar a sua vida e os seus relacionamentos. Uma palavra mal colocada é capaz de transformar a sua vida pacífica em um verdadeiro inferno, ou algo mais parecido com um labirinto repleto de paredes sem sentido entre você e o outro.

O ponto chave para atentarmos é que a qualidade do modo como nos comunicamos não se define tão pouco pelo aparente uso gramatical ou o caráter do vocabulário que empregamos. E sim, se revela através daquilo que “colore” as palavras escolhidas principalmente; as emoções, sentimentos e necessidades que estão impregnadas nas palavras ditas. E as não ditas também entram no bolo, que continuam ressoando com presença total em nossas mentes.

Compomos frases formadas por algo muito além das palavrinhas tão usadas, algo que habita o “entre”. Podemos dizer que a comunicação é pura humanidade, o sentido, a força expressiva contida nos ‘bastidores’ da fala, os sentimentos que são comuns a todos nós. Pois, até mesmo quando não dizemos, expressamos.

Pode parecer dramático, mas se faz urgente contemplar a importância do potencial transformador que a consciência na comunicação pode nos trazer, enquanto humanos vivendo em sociedade, compartilhando a vida.

Se você é uma pessoa que trabalha com comunicação de forma direta ou indireta, seja na mídia ou na área da saúde, educacional, política, ou simplesmente alguém que busca se relacionar melhor com você e com os outros; o presente texto lhe presenteará com uma dica generosa.

A comunicação é uma arte, diria talvez qualquer pessoa que estivesse buscando uma frase corriqueira para expressar quão sofisticada e enigmática é a tarefa de nos comunicarmos. Nas relações mais diversas que encontramos no trajeto da vida, nos deparamos com a contínua ação de estabelecermos conexão com as pessoas através das palavras. Uma prática que, se tudo correu como o previsto tende a se tornar tão automática quanto respirar.

Em meados dos anos 80, Marshall B. Rosemberg, psicólogo clínico americano, escreveu um livro best-seller internacional sobre o tema, chamado Comunicação Não-Violenta; técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais (tradução em língua portuguesa).

Sob o prisma da mediação de conflitos, seu livro, resultado de sua especialização em psicologia social, atravessou os limites do conhecimento técnico ou metodológico e se tornou um movimento prático, hoje disseminado pelo mundo todo: a CNV.

No Brasil, Dominic Barter, pesquisador inglês, consultor internacional em Comunicação Não-Violenta é um forte catalisador da CNV. Através de treinamentos realizados por ele e sua equipe, para dezenas de pessoas em diversas regiões do pais e fora dele, procura difundir pelo mundo práticas para o estabelecimento de relações de parceria e cooperação, com a missão de favorecer um diálogo eficaz e sustentável entre povos e indivíduos em conflito.

De forma superficial, podemos dizer que a CNV nos ensina a nos colocarmos no lugar do outro, desenvolvendo a empatia, buscando transformar o conflito que se apresenta, com o propósito de criar relacionamentos interpessoais baseados em respeito mútuo.  

Algo grandioso, potencialmente transformador e extremamente útil para melhorarmos a relação conosco mesmo e, inevitavelmente as relações interpessoais em nossa sociedade, tão carente de compaixão e tão abundante em discórdias em todas as esferas.

Durante os treinamentos realizados por Dominic Barter, chamados de jornadas CNV, o tempo é preenchido basicamente com práticas contínuas para apreendermos de forma orgânica algo que pode parecer óbvio, porém não menos desafiador: ouvir (mesmo) e buscar compreender aquilo que está sendo dito além das palavras, ou talvez entre as palavras, ou... por trás delas?

Nas jornadas participam dezenas de pessoas, exercitando uma maneira de construir sentido juntas através das palavras, um sentido que transcende a fala em si; entretanto a chave do método se encontra na percepção de que sentimentos e necessidades básicas, humanas, estão sendo compartilhadas no momento da troca por ambas as partes.

A CNV aponta o leme do barco chamado comunicação para a direção daquilo que todos temos em comum, que nos une: os sentimentos e necessidades básicas humanas universais. Ou, estamos todos no mesmo barco navegando no mar de tentativas de expressão das mesmas necessidades humanas compartilhadas e, não são poucas: proteção, validação, cuidado, amor, segurança, compreensão, proximidade, equilíbrio, honestidade...

Quando dizemos algo, essa expressão pode ser objetiva, mas de qualquer forma contém emoção e sentimentos envolvidos, porque somos humanos e sentimos inevitavelmente. Nos termos da CNV, consideramos que toda emoção ou sentimento pressupõe uma necessidade humana implicada.

Navegar nessa investigação representa compreender que existem necessidades subjacentes na fala do outro, assim como na sua própria fala. E que, podemos manter o foco nessa percepção de que valorizamos as mesmas coisas, enquanto humanos. Aliás, precisamos das mesmas coisas, que não são coisas entretanto.

Ao colocarmos o foco naquilo que compartilhamos, as paredes desabam e as janelas se abrem. E, ao identificarmos as tais necessidades nossas e dos outros, estamos observando aquilo que sentimos e aquilo que estamos precisando e, assim, estamos cuidando de nós mesmos e do outro. A comunicação ganha um brilho empático que traz vida e conexão.

Continuando nessa onda de imagens agregadoras de compreensão, o conflito inerente à comunicação representa o vento, necessário para trazer movimento, transformação e continuidade à jornada do barco da comunicação.

Então, lembre-se disso: você quer ser ouvido? Compreendido, amado, validado, considerado, admirado, respeitado? Seu parceiro ao lado também necessita de tudo isso e mais um pouco.

 

Aprimore Psicologia
Aprimore Psicologia
Aprimore Psicologia Seguir

Núcleo de Estudos Psicológicos dedicado à formação continuada de psicólogos e profissionais afins. Fundado em 2008 e coordenado por Luiz Pezzini, disponibiliza Grupos de Aprimoramento Clínico e esta Comunidade como plataforma de ensino e online.

Ler matéria completa
Indicados para você