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Precisamos falar sobre puerpério

Precisamos falar sobre puerpério

Por Rafaela Dias

 

O puerpério é um período caracterizado pela reconstrução da mulher que se tornou mãe. Muitas mulheres  não se preocupam com o período após o nascimento do bebê. Isso não é culpa da mãe. O puerpério ainda é tabu em nossa sociedade e pouco se fala desse período devastador e transformador. Há um ideal de que a mulher dê conta de tudo após o nascimento do filho. São usadas como referência gerações anteriores, onde a mulher ficava em casa enquanto o homem trabalhava fora e trazia o sustento para o lar. Não podemos esquecer que hoje em dia muitas coisas mudaram. Antigamente as mulheres tinham uma rede de apoio grande e era auxiliada, muitas vezes, pelas mães, irmãs, familiares e amigas que faziam parte do seu círculo de convivência. Havia uma mobilização para o cuidado dessa recém-mãe, para que ela pudesse se dedicar a esse ser que acabara de chegar. Hoje em dia essa rede de apoio muitas vezes não existe, as pessoas mais próximas dessas mulheres na maioria das vezes trabalham fora e não conseguem estar presentes. E essas mães se deparam com um pós-parto completamente solitário, o que pode gerar uma maior dificuldade para passar por esse período.

Quando nasce um bebê renasce uma mulher. Esse período é importante para ela se reconhecer nessa nova posição. Deixa de lado o papel de filha para assumir o papel de mãe. Junto com isso uma responsabilidade que, provavelmente, essa mulher nunca havia experimentado. Esse momento é importante para ela se conectar com seu novo eu, repensar seu relacionamento com seus pais, com o cônjuge, com a carreira e com o mundo.

O puerpério é um período de luto para as mulheres. Esse luto não é limitado a mortes físicas. Muitas mulheres passam pelo luto do parto idealizado que, na maioria das vezes, é bem diferente do parto real. Há também a idealização de um bebê que dificilmente atingirá as expectativas idealizadas. O bebê real demanda muito dessa mãe e pode fazer com que a mulher fique ligada ao bebê idealizado e tenha dificuldade para se vincular ao bebê real.

Há o luto da separação física dos dois, que antes eram apenas um só corpo, um "único" ser.

Essa mulher começa a perceber que já não tem mais o controle sobre o próprio corpo. Há toda a mudança hormonal que já sabemos, além de que, a partir desse momento, ele se vê fisicamente modificada.

No início é comum haver dificuldades com a amamentação, o que pode ser bastante frustrante para a mulher; o seio pode fissurar, o que irá gerar um sofrimento, além de físico, emocional. O corpo dessa mulher passa a ser usado como fonte de alimento e ela precisa estar à disposição sempre que for necessitado pelo bebê. Ela não tem mais controle de sua vida, não consegue ter as necessidades básicas supridas no tempo dela; é tudo no tempo do bebê. Há a exaustão física, dificuldade de cuidar do bebê, instabilidade de humor, distúrbios de sono e/ou alimentares, ansiedade, choro fácil, sensação de incapacidade, entre outros.

Nessa fase a mulher é capaz de experimentar quase todos os sentimentos conhecidos por nós. Há a alegria pela chegada do filho, tristeza pelos lutos a serem elaborados nesse período, o medo do desconhecido e de estar no caminho errado com os cuidados do bebê, a culpa materna que a acompanha desde o momento que se torna mãe, a frustração em relação ao parto e bebê ideal vs. real, a raiva do bebê que não a permite ser a pessoa independente que era do marido (que por sua vez muitas vezes não compartilha os cuidados com o bebê como deveria), dos familiares que não escutam essa mulher e além de não auxiliarem fazem com ela se sinta cada vez pior com palpites ou cobranças.

Uma recém-mãe precisa de apoio e acolhimento nesse período. A rede de apoio é parte determinante para que ela se sinta mais segura. Participar de encontros e grupos presenciais ou virtuais pode ajudá-la a encontrar informações e compartilhar os sentimentos envolvidos nesse período. Buscar apoio na psicoterapia também é um grande diferencial, pois além de auxiliar a mãe a passar por esse período de sofrimento é um espaço onde ela pode encontrar escuta e acolhimento, que são peças fundamentais no puerpério.

Há uma idéia de que a mãe se vincula ao bebê no primeiro instante que o vê. Há uma romantização da maternidade que tende a influenciar negativamente esse período. O vínculo, com qualquer pessoa, é criado diariamente; com o filho não seria diferente. Mas não se fala sobre isso. A sociedade não tem o cuidado devido com a recém-mãe, não fala o quanto é difícil, apenas dize que ela está vivendo o momento mais importante de sua vida e deveria estar feliz por isso. Mas a realidade é diferente, a mulher pode estar passando pelo momento mais difícil de sua existência e não tem liberdade e confiança para falar sobre isso com ninguém.

As dores e lutos do puerpério precisam ser legitimadas em nossa sociedade. Essa mulher precisa de acolhimento, de escuta e empatia. Ela precisa estar bem auxiliada nesse período. 

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Núcleo de Estudos Psicológicos dedicado à formação continuada de psicólogos e profissionais afins. Fundado em 2008 e coordenado por Luiz Pezzini, disponibiliza Grupos de Aprimoramento Clínico e esta Comunidade como plataforma de ensino e online.

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