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Psicoterapia para mulheres vítimas de violência

Psicoterapia para mulheres vítimas de violência

O Brasil é um país extremamente violento, machista e preconceituoso contra as mulheres, mesmo com uma legislação específica para combater esse tipo de ocorrência (Lei Maria da Penha 11.340/06), é o que mostram pesquisas recentes:

Dados do jornal Folha de S. Paulo revelam: “foram registrados 45.460 estupros no Brasil em 2015, além de 6.988 tentativas, segundo o Anuário Brasileiro da Segurança Pública. No Acre, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná e Roraima a taxa de estupros supera 35 vítimas por 100 mil habitantes. Já o Estado de São Paulo concentra o maior número absoluto de boletins de ocorrência de estupro: mais de 9.200 em 2015. E esses números não iluminam a real dimensão do problema dada a subnotificação de casos de violência sexual no Brasil. Um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, em 2014, estimou que apenas 10% dos estupros consumados no país são reportados à polícia”.

Ainda segundo o jornal Folha de São Paulo, cerca de 60% das vítimas foram violentadas por pessoas de seu círculo pessoal, incluindo familiares, companheiros e ex-companheiros. Em 1/5 dos casos envolvendo conhecidos, o criminoso era um vizinho; 18% era um colega da vítima e 10% um amigo da família. Entre os familiares, os mais citados foram os pais (28%), padrastos (26%) e tios (17%). E a maioria dos casos de estupros foi praticada dentro de uma residência. Foram identificados inúmeros relatos de longos históricos de abuso pelo mesmo agressor.

Venho percebendo ao longo do tempo na minha prática clínica que muitas mulheres que sofreram (ou ainda sofrem) de diversos tipos de violência praticadas por homens estão se encorajando a realizar psicoterapia. Enfrentar os traumas e superar as dores psicológicas de quem viveu esse tipo de agressão não é uma tarefa simples. Porém, em médio e longo prazo, é possível com os conhecimentos da psicologia se fortalecer emocionalmente, recuperar a autoimagem e a autoconfiança vivendo de maneira saudável e com qualidade de vida.

De acordo com o site El País, outra forma de relação abusiva conhecida como gaslighting tem sido cada vez mais frequente. Gaslighting pode ser um abuso sutil, manipulador, depreciativo, negligenciador, em que geralmente não há violência física explícita. Consequentemente, esse tipo de relação pode destruir a autoestima da mulher a ponto de anulá-la, de transformá-la em um punhado de dúvidas e medos, podendo gerar problemas psicológicos como ansiedade e depressão. 

Gostaria de citar um aplicativo de apoio às vítimas de violência, o “Juntas”, onde é possível registrar em áudio e vídeo denuncias, como prova contra o agressor e acionar instantaneamente situações de perigo em redes de proteção pessoal.

A violência contra as mulheres vem sendo cada vez mais abordada na mídia de maneira geral, em blogs e sites especializados e até na teledramaturgia. É o caso da personagem Laura (Bella Piero) da novela “Do outro lado do Paraíso” da Rede Globo, onde recordou-se de ter sido vítima de abuso sexual quando criança por seu padrasto. É muito importante levar temas como esse ao grande público, já que as novelas no país possuem grande audiência e repercussão. Porém, a novela comete um grave equívoco ao propor ao caso uma solução rápida com atividade de coaching como intervenção terapêutica.

O coaching pode ser relevante para contextos específicos, “não é uma profissão reconhecida e não está vinculado a nenhuma formação universitária específica. Trata-se, segundo o Instituto Brasileiro de Coaching de ‘um processo de desenvolvimento humano que usa de técnicas da Administração de Empresas, Gestão de Pessoas e do universo dos esportes para apoiar pessoas e empresas no alcance de metas, no desenvolvimento acelerado e em sua evolução contínua’” (CRP- MG,2018).  

Apesar dos números alarmantes de nossa realidade social parte de nossa sociedade vem aos poucos se organizando para mudar essa perspectiva. Hoje existem instituições, coletivos, grupos organizados, sites e muitas pessoas engajadas em transformar nossa triste história de violência contra as mulheres. A psicoterapia pode ser um forte aliado nesse processo de empoderamento feminino, encorajamento, reestruturação emocional e resiliência para mulheres vítimas de violência.

 

Referências

http://agoraequesaoelas.blogfolha.uol.com.br/2017/11/08/para-alem-do-moralismo-vazio-numeros-aterradores-e-como-enfrenta-los/ (10/12/2017)

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/15/internacional/1505472042_655999.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM (10/12/2017)

https://crp04.org.br/nota-explicativa-sobre-apresentacao-de-coaching-em-novela/ (10/12/2017)

 

 

 

 

Aprimore Psicologia
Rodrigo Scialfa Falcão
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Formado pela Universidade Mackenzie. Mestre em Esportes para Resolução de Conflitos pela Universitat Oberta da Catalunya. Especialista em Especialista em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP. Psicologia do Esporte pelo Inst. Sedes Sapientiae.

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