[ editar artigo]

Smartphone: o bat-cinto nosso de cada dia

Smartphone:  o bat-cinto nosso de cada dia

Qual a relação que estabelecemos com nosso smartphone?  Qual função ele desempenha em nossas vidas?  

 

Entre o ano de 1966 e 1968, Batman (interpretado por Adam West) e Robin (por Burt Ward) passou na TV americana. Os tempos eram outros e o que evidencia isto - de forma gritante até - é que o ator Adam West estava claramente fora de forma para qualquer super-herói - pelos menos para os super-heróis que apareceram na TV a partir da década de 80 (comparem por exemplo imagens de Adam West com imagens de Christopher Reeves, o Superman dos anos 80.)

Falando da televisão, vamos a um breve histórico: na década de 1840 vários cientistas começaram a estudar a viabilidade de realizar a transmissão de imagens para grande distâncias. Em 1842, um escocês conseguiu enviar telegraficamente uma imagem. Daí seguiram-se avanços importantes de inventores de diversas nacionalidades: o sueco Jons Jacob Berzelius, no início do séc. XIX e o britânico Willoughby Smith, em 1873. Em 1884 o alemão Paul Nipkow inventou de um disco capaz de fracionar uma imagem em elementos que podiam ser reorganizados para sua transmissão.

No fim do século XIX outros cientistas desenvolveram os tubos de raios catódicos. Em 1920, o escocês John L. Bard montou um dos primeiros modelos de TV de que se tem notícia. A partir daí esse equipamento foi aprimorado. Em 1923 o russo Wladmir Zworykin desenvolveu um tubo de imagem chamado iconoscópio e a empresa norte-americana RCA o contratou para produzir o Orticon, a primeira televisão fabricada em escala industrial.

Na década de 1930 a televisão já havia sido aprimorada e ganhou viabilidade comercial. E em março de 1935 os alemães realizam a primeira transmissão televisiva. A TV foi amplamente utilizada na divulgação do regime nazista de Adolf Hitler, mais de cem anos após os primeiros estudos relacionados à criação da tecnologia. No exterior a transmissão de imagens coloridas foi alcançada em 1954.

Portanto, a TV demorou mais de cem anos para ser inventada. É claro que se decompusermos os nossos aparelhos eletrônicos e estudarmos a história de de cada componente, podemos chegar tão longe quanto a invenção da ferramenta pelos nossos ancestrais do Paleolítico. Os mais de cem anos da TV são apenas recorte histórico que eu escolhi fazer para fins de comparação.

Quando foi inventado o celular? Ele começou a ser inventado há muito tempo, em 1918 em linhas de trens, os progressos que se seguiram envolveram vários países, mas foi com o Motorola DynaTAC 8000X de 1973 que a tecnologia tornou-se viável. O Dynatac tinha 25 centímetros de comprimento, 7 de largura e pesava um quilo. O celular entrou de fato em operação em 1979, no Japão e na Suécia. Podemos dizer sem sombra de dúvida, de lá pra cá que ele mudou muito, certo? E em muito menos tempo. Sem delongas: o celular, que começou como um simples telefone móvel, incorporou em aproximados quatro décadas a televisão. E o rádio. E o relógio. E o rádio relógio. E a câmera fotográfica. E a filmadora. E o correio. E muitas vezes, o correio-elegante. E a agência bancária. E o guia 4Rodas. E o jogo de tabuleiro, o baralho e o vídeo-game. E a moça da previsão do tempo. E o jornal impresso. E o bloquinho de recados. Também a caneta e o caderno. E mesmo partes do nosso corpo, como o braço, que a gente esticava pra chamar a atenção do taxista até tempos recentes. Batman e Robin, de 1966, morreriam por um destes. E nem precisaria ser o iPhone X.

Aqueles que têm idade suficiente talvez se lembrem do blecaute de 11 de março de 1999, conhecido como o "apagão", quando 70% do Brasil ficou sem energia elétrica. Mesmo que um evento como esse seja pouco provável nos dias de hoje nas grandes cidades (ainda mais após o aprendizado de 1999), ele não é impossível, tampouco impensável. No caso do improvável acontecer, quantos de nós correm o risco de descobrir que precisam (e nunca pensaram nisso antes) de velas e fósforo? A luz do flash dos telefones celulares não dura para sempre....e você pode ser pego com pouca bateria, não? Não sei dizer quantos de nós incorreriam neste erro....mas este que vos fala já se viu em tal situação.

Hoje vejo que no meu bat-cinto de utilidades cabia o celular, o computador, o aparelho de som, o liquidificador, o forno microondas, o aparelho de barbear, mas não havia um compartimento para velas, tampouco para fósforos (meu fogão era moderno, tinha acendimento automático, dependente de eletricidade, uma maravilha, não?!). 

O presente artigo não pretende, de forma alguma, ser nostálgico. Este que vos escreve adora o smartphone, o tablet, o laptop e a TV com imagem em alta-definição. Não quero viver sem eles. A questão que quero colocar é: como, então, viver com eles?

Primeiramente, sugiro verificar como está seu estoque de velas e de fósforos. Também sugiro comprar pilhas e um radinho, a não ser que você tenha, a todo momento, um celular com bateria suficiente para usar sua funcionalidade “rádio”. 

Em seguida, sugiro que você remova cuidadosamente (e com um produto não abrasivo) a cola que mantém o seu smartphone grudado à sua mão, ao seu bolso ou bolsa. 

O próximo passo é aprender (por exemplo lendo as primeiras páginas do manual de instruções) onde fica o botão que desliga seu aparelho (ou se você depende de outras funcionalidades, como, por exemplo, o relógio, há uma coisa incrível que se chama “modo avião” e que pode ser usada também fora do avião). Sou psicólogo, estudei muito para poder dizer com certeza que seu smartphone não sentirá solidão tampouco abandono. E não se preocupe, todo smartphone vem com um botão de ligar que pode ser usado a qualquer momento, veja só que coisa prática!

A questão relevante é: como você se sente quando se descola de seu smartphone? Aliás, você já experimentou se descolar dele? O exercício não é difícil e pode começar pequeno. Você pode, por exemplo, entrar no elevador e olhar as pessoas, ver como elas são diferentes, ou como se parecem, ou como todas elas estão, provavelmente, mexendo nos seus smartphones e se escondendo deste contato humano que, mesmo superficial, acontece num elevador. 

Outro exercício importante é o de aumentar o intervalo no qual você entra nas redes sociais, no e-mail, no instagram, etc. Você perceberá que o mundo não acaba quando você não atualiza a todo o momento o seu cérebro com um volume grande de informações, algumas realmente importantes e outras tantas irrelevantes.

Como foi ilustrado neste artigo, através da menção às histórias da televisão e do telefone celular, os avanços tecnológicos acontecem - desde a popularização das tecnologias da informação - num ritmo muito mais acelerado. E a maioria de nós, inclusive este que vos escreve, gosta da conveniência que a tecnologia nos traz. Mas cada nova tecnologia, embora venha com um manual de instruções, não traz consigo um manual de sobrevivência. E esta dinâmica atravessa a história: quantos dos nossos ancestrais hominídeos devem ter se queimado ou mesmo morrido antes de aprender a utilizar o fogo de forma segura? Ou seja, a tecnologia chega até nós antes de sabermos como utilizá-la de forma saudável, como por exemplo estabelecer com o smartphone uma relação instrumental ao invés de uma relação simbiótica

Segue um útil exercício, não por nostalgia, mas por inteligência: não esqueçamos os relatos da História pois, segundo tais, as pessoas viviam suas vidas mesmo sem o motor à vapor, sem o rádio, sem o automóvel, sem a TV e até mesmo sem as tecnologias digitais. Também não nos esqueçamos das Estórias, aquelas contadas pelos nossos avós, que nos falam de outros tempos onde os problemas corriqueiros ou mesmo os importantes eram resolvidos com a ajuda de fósforos, velas e lenha.

Não esqueçamos ainda que um smartphone precisa de uma bateria carregada por eletricidade, e que a eletricidade talvez venha de uma usina termolétrica, que por sua vez queima carvão (é tentador, mas foge ao tema deste texto entrar na importantíssima questão ecológica). 

O smartphone é talvez o bat-cinto de utilidades do nosso tempo. Mas ele não é e nem precisa ser um órgão vital. Nem para nós os reles mortais, tampouco para o Batman – ele sabia que havia momentos em que precisava ser apenas Bruce Wayne. E que Bruce desligaria, vez por ora, o seu iPhone.

Aprimore Psicologia
Ler matéria completa
Indicados para você